Paulista,
cidadezinha do sertão decadente e empobrecido da Paraíba, com 14 mil habitantes
mais o casal Cornélio Nagaia e Afrouxada Navara, destaca-se pela cultura da
infidelidade. Tipicamente agrícola e excluída do mapa oficial, Paulista é a
pátria de pessoas assistentes nas entranhas do semiárido nordestino, caso do
Sr. Cornélio e da Sra. Afrouxada que nunca na vida viram um aparelho de
televisor, não ouviram falar de anticoncepcionais, em DNA ou na importância de
Santos Dumont para aviação mundial.
Cornélio
Nagaia e Afrouxada Navara assistiam no Sítio de sugestivo nome “Ponta da
Serra”, naquele termo. Como não se tinha muito o que fazer, Cornélio era pai de
17 “comedorezinhos de rapadura”. Pai? É, pai sim senhor porque pai é aquele que
cria e Cornélio Nagaia criava a todos como Deus cria batata. Mas, pairava uma
certa dúvida quanto à paternidade apenas dos 2 primeiros filhos dos casal.
Senão, vejamos: Cornélio casara-se com Afrouxada 5 meses após tê-la conhecido
e, 4 meses após o casamento, nasceu o casal de gêmeos, Penislaudo e Vaginilda.
O fato de Cornélio manter-se virgem, donzelo, até os 6 meses após o casamento é
apenas um detalhezinho irrelevante; e porque Cornélio era moreno e os 2 bebês
eram galegos dos olhos azuis, não importava e não chamou a atenção de quase
ninguém.
Agora,
quanto aos outros 15 filhos do casal, toda a vizinhança e a torcida inteira do
Flamengo tinham certeza absoluta de que Cornélio não era o pai biológico. Mas,
como eles sabiam? Ah, responda quem souber. Afinal de contas, chifres são
coisas que botam na cabeça das pessoas.
Afrouxada
Navara era muito atraente. Diferentemente de seu marido, digo, de seu esposo,
que tinha o biótipo de manequim da Brasil Gás, Afrouxada assemelhava-se a uma
pamonha mal amarrada ou a um saco de jerimum amarrado pela boca e tinha um
cheiro peculiar de murrinha, o que denunciava sua presença na circunvizinhança.
Apesar
da comunicação ser quase inexistente no Sítio “Ponta da Serra”, Afrouxada
Navara possuía um rádio de pilha “Nórdson” que só vivia com quebranto, no qual,
algumas vezes, conseguia ouvir um pastor da Igreja Catogélica falar em Deus e
na tal de “Besta-Fera”. Para ouvir mais falar nesses dois seres míticos, Deus e
a “Besta-Fera”, em quem acreditava piamente, ela ia todos os dias rezar no
rádio quebrantado na casa do rezador ou macumbeiro mais próximo que distava 14
km da casa de Afrouxada para que o “dion” funcionasse. Na verdade, o dito rádio
só pegava, às vezes, quando o Sol esquentava que aquecia suas peças e dona
Afrouxada Navara não sabia disto.
A
esposa do Sr. Cornélio Nagaia aprendera algumas ladainhas e só andava pelos
caminhos se fosse cantarolando-as, rezando, pois tinha muito medo da tal
“Besta-Fera” que andava às soltas. Até que um dia aconteceu o inesperado quando
dona Afrouxada Navara levava seu rádio de estimação para o rezador benzê-lo: Um
indivíduo, também assistente no Sítio “Ponta da Serra”, individuo esse que mais
se parecia com o resultado do cruzamento entre um desastre ecológico e uma
mistura de cruz-credo, conhecido pelo alcunha de “Mangaba”, pegou a jumentinha
“Sophia Loren” para fazer “severgonheza” na
bichinha. Mangaba despiu-se e amarrou a sua roupa no pescoço da sedutora
Sophia Loren para começar a prática do estupro contra aquela bichinha quase
indefesa. Mas, Sophia Loren não contou conversa: Ergueu-se nos tamancos, soltou
três peidos grandes e um coice no capricho na altura dos países-baixos do
estuprador de jumentinhas quase donzelas e correu com a roupa do taradão no
pescoço.
Restou
ao “Don Juan” sedutor de jumentinhas, versão coisa feia, tirar atrás de Sophia
Loren para pegar sua roupa de volta. Mas, enquanto Sophia Loren corria com
quatro patas, o maníaco sedutor de jumentinhas corria apenas com duas.
Destarte, com o movimento da carreira empreendida, as partes nervosa e sensível
do indivíduo sedutor de jumentinhas balançavam e faziam chilepo, chilepo,
chilepo, chilepo... Nesse momento, quem ia com o rádio com quebranto para
benzer na casa do rezador? Quem? Quem? Quem? Quem? Ora, era dona Afrouxada
Navara.
Chilepo,
chilepo, chilepo, chilepo... Quando a mulher do rádio com quebranto ouviu esse
barulho e viu aquele mal assombro, ficou toda arrepiada e teve o maior susto de
toda sua vida de servidora pública não assalariada, dando um grito esfarrapado,
característico das superstições sertanejas:
-
Deusin do céu! É a Besta-Fera!
A
coisa feia, ainda mais feia correndo nu estrada a fora com suas coisas feias
balançando e fazendo chilepo, chilepo, chilepo, chilepo, tentou acalmar dona
Afrouxada Navara:
-
Num é a Besta-Fera não! É eu, Mangaba. Dona Afrouxada, num viu Sophia Loren
correndo com a minha roupa no pescoço não? Eu ia fazer severgonheza com ela,
mas ela fugiu com a minha roupa.
Passado
o susto, dona Afrouxada Navara ficou lambendo os beiços quando olhou para
Mangaba e viu aquelas coisas feias que já não balançava mais e não fazia
chilepo, chilepo, chilepo, chilepo. É claro que ela não iria dizer que vira
Sophia Loren, pois as duas (a jumentinha Sophia Loren e dona Afrouxada Navara)
eram rivais: Uma vivia querendo tomar o homem da outra. Além do mais, Sophia
Loren fugira com a roupa de Mangaba porque tinha certo pudor, coisa que dona
Afrouxada Navara não tinha. Sophia Loren não iria fazer severgonheza com
Mangaba no meio da estrada por onde dona Afrouxada Navara passava todo dia com
o rádio com quebranto para benzê-lo na casa do rezador, mesmo que fosse para
fazer ciúmes à rival.
Todavia,
apesar da trabuzana com a desafeta, dona Afrouxada Navara era uma mulher muito
caridosa. Assim que chegava com o rádio já desquebrantado da casa do rezador,
ela saía pelos moitéis da cercania prestando favores específicos às filas
intermináveis de caçacos necessitados que faziam severgonheza com ela. Até
mesmo Mangaba desistiu de Sophia Loren e passou a frequentar os moitéis e a
casa de dona Afrouxada Navara só porque Mangaba percebera que dona Afrouxada
Navara ficara lambendo os beiços quando o viu nu, com suas coisas feias
balançando e fazendo chilepo, chilepo, chilepo, chilepo...
Quando
Cornélio Nagaia despertou para a movimentação tão intensa em sua casa, ficou
mais atento. Mas, ele somente adentrava a choupana velha quando saía o último
membro da sociedade. Até que, certa noite, vendo a lamparina acesa e ouvindo o
chiado da palha de arroz do colchão, ele se armou com uma faca-peixeira de 12
polegadas para investir contra João Fogoió, morador das cercanias que estava
fazendo severgonheza com Afrouxada Navara. Cornélio adentrou o quarto do casal
e foi logo mostrando que ele era quem era o homem da casa:
-
Muié, muié, eu vou matar esse João Fogoió!
-
Calma, Cornélio, não vá matar o pai dos seus fiios, ome!
-
Afrouxada, é que ocê só faize severgonheza cum os outros!
-
Dexa de injustoça que num faize nem três meise que ocê fez severgonheza cum eu!
-
Quando?
-
Quando ocê tava bebo.
-
Afrouxada, eu nem bebo aico.
-
Nóis também fizemo enxerimento naquele dia que ocê tava cum arroto choco. É que
ocê num se alembra.
-
Num se alembra! Muié, ocê oiça bem: Se eu pegar ocê sendo ruim outra veize cum
esse Joao Fogoió, eu vou fazer uma desgracera sem tamanho e ocê num vai mais
nunca furunfar cum ninguém.
-
Mais furunfar é tão bom!
O
tempo passava, a barba crescia, a coisa ficava preta e a fidelidade no
casamento de Cornélio Nagaia e Afrouxada Navara era um artigo inexistente.
Mesmo assim, os dois foram feitos um para o outro e, como todo mundo estava
comentando que Cornélio estava sendo traído por sua esposa, ele resolveu dá uma
saidinha para aliviar o peso dos chifres, digo, arejar a cabeça quando
encontrou o cão chupando manga, Mangaba chupando os frutos da mangueira que
tinha no oitão da casa. Até aí, tudo bem: Nada demais que alguém chupe manga da
mangueira de um vizinho, de um sócio no amor, tão prestativo quanto o esposo de
Afrouxada Navara. Mas, quando foi à noitinha que Cornélio voltou para casa e ouviu
um barulho semelhante a um cachorro quando está bebendo água: “Laco-laco”!
“Laco-laco”! “Laco-laco”! “Laco-laco”!, ele alarmou:
-
Afrouxada, tem um cachorro comendo a lavagem. Espante ele.
Ora,
que cachorro comendo a lavagem, que nada! Era Mangaba que estava furunfando,
dando um trato completo na mulher, digo, na esposa de Cornélio: Fazendo
severgonheza, chupando os peitos da Afrouxada, além de outras coisas inerentes.
Então, Cornélio puxou a faca-peixeira da cintura e investiu contra Mangaba para
defender a honra de sua mulher, digo, sua esposa, dizendo umas palavras de
cabra macho:
-
Sabia que vai morrer agora, seu enxerido?
Tão
depressa, Mangaba levantou do colchão de palha de arroz e, sacando dois 22 que
tinha adquirido num rolo feito com João Fogoió e com o rezador, escalou-os em
cima do homem, digo, do chifrudo furioso e prosseguiu o diálogo violento:
-
Sei não. Por modo de quê?
-
Por modo de que eu vi o senhor chupando manga e agora o senhor tá tumando
leite! Ou o senhor num sabe que manga cum leite ofende?
Sabendo
que ia haver sangue, dona Afrouxada Navara interviu:
-
Ocê, Cornélio, dexe de futrica, meu véio!
- Eu
só quero saber o que esse enxerido tá fazendo cum ocê.
-
Óia, é esse enxerido que traize os preá que é pra ocê cumer; é esse enxerido
que enche os pote cum a água da cacimba; é esse enxerido que vai comprar os
cachete que é pra ocê tumar quando tá cum bucho inchado e cum arroto choco!
- Ô,
minha veia, então cubra o bichinho pra ele num pegar um difruço!
Somente
Cornélio sabia o porquê de tomar uma decisão tão forçada: Ele passaria a
assistir na sede do município e não mais no sítio Ponta do Cornélio, digo,
Ponta da Serra.
E os
filhos? Ah, os filhos de Cornélio, digo, de Afrouxada Navara ficaram com a
vizinhança. Apenas o casal partiu para a cidade pois, mesmo sabendo que a dor
do parto era muito grande, eles tinham que partir, para assistirem na Rua das
Desilusões Amorosas, n° 666 – Paulista/PB.
Por
que será que Cornélio Nagaia e Afrouxada Navara passaram dois anos sem saírem
de casa? Alguns vizinhos diziam-lhes que 666 era o número da Besta-Fera e,
sendo julgado pela infidelidade, o casal estaria marcado para ser levado para o
quinto dos infernos. Mesmo assim, Cornélio foi ao açougue comprar 2kg de tripas
e o “bofe” de uma vaca para dona Afrouxada Navara cozinhar dentro do feijão e
do mungunzá. Ao passar defronte a residência de Abraão Xavier, Cornélio viu o
dono da casa assistindo ao filme “Sociedade dos Poetas Mortos” e, quando o
estudante atirou em seu próprio ouvido porque os seus pais tinham-no tirado da
escola onde ele estudava Poesia, sem nunca ter visto um aparelho de televisor
na vida, aos berros, Cornélio Nagaia interrompeu a sessão de cinema:
-
Pelo amor de Deus, num dexe aquele home morrer nem ser levado pela Besta-Fera!
- Ô,
chifrudo, isto é um filme – respondeu uma moça que estava fazendo sabão com
Maria lá na área de serviço de Edilma.
Assombrado com as Bestas-feras da vida ou com
as Bestas-Feras de Paulista, Cornélio correu com as tripas e com o bofe na mão
porque ele se atrasara para o preparo do mungunzá. Antes, porém, ele ficou
ainda mais assombrado quando ouviu o pastor da Igreja Catogélica falar o
seguinte:
-
Meus amigos, a vida é regida por números: Número de telefone, número de cartão
de crédito, número de carteira de identidade, número disso, número daquilo,
número de pessoas. Assim, o pior número que existe é o número 666, que é o
número da Besta-Fera. Se esse número 666 for o número de sua casa, venda-a
imediatamente porque se não vender, a Besta-Fera vem buscar quem estiver
morando nela.
Dirigindo-se
a Cornélio Nagaia com palavras apocalípticas, o pastor da Igreja Catogélica
gatuna deixou o homem, digo, o esposo de dona Afrouxada Navara todo cagado:
- O
senhor, que mora na Rua das Desilusões Amorosas, n° 666, número da Besta-Fera,
converta-se a nossa Igreja Catogélica, doe-nos a sua casa, de papel passado,
para fazermos um descarrego e nos instalarmos lá, e pague 10% (dez por cento)
de tudo o que o senhor ganhou, ganha ou ainda vai ganhar em toda a sua vida. Se
o senhor não fizer isto, hoje mesmo será levado pela Besta-Fera! Repito: Se o
senhor não fizer isto, hoje mesmo será levado pela Besta-Fera!
Ora,
o pastor da Igreja Catogélica gatuna, que antes era assassino, homossexual e
ladrão, estava de olho na ampla e confortável casa de Cornélio porque sua
Igreja Catogélica gatuna funcionava parede-e-meia com o cabaré de Maria Pequena.
Não que o pastor da Igreja Catogélica gatuna não gostasse do produto, ele até
que gostava. O problema é que ninguém iria deixar de gastar o seu dinheirinho
nas surubas promovidas pela proprietária do “ganga” para pagar o “dízimo” ao
pastor da Igreja Catogélica gatuna e, além do mais, Maria Pequena só cobrava R$
1,99 (Um real e noventa e nove centavos) por uma noite de furunfação para
enfrentar a concorrência da ADECOPA e do Rio Piranhas, onde se fazia
severgonheza de graça, ou seja, sem pagar R$ 1,99 (Um real e noventa e nove
centavos) por furunfada à Maria Pequena nem o dízimo ao pastor da Igreja
Catogélica gatuna.
E o
que o Sr. Cornélio Nagaia poderia pagar ao pastor da Igreja Catogélica gatuna,
se o que ele ganhou durante a vida inteira foi apenas chifre? Até mesmo a casa
em que ele assistia com sua esposa Afrouxada Navara fora presenteada pela
comunidade do Sítio Ponta da Serra que gostava muito daquela servidora pública.
Coincidentemente,
no instante em que o pastor da Igreja Catogélica gatuna acabou de tentar
persuadir Cornélio Nagaia, ouviu-se o barulho ensurdecedor do motor de um caça
militar que participava da chamada “Operação Sertão”, que visava prender o
presidente do DCE de Patos por este mafioso ter comprado um carro com o
dinheiro das carteiras dos estudantes da Fundação Francisco Mascarenhas. Ao
ouvir o barulho do avião, o Sr. Cornélio Nagaia nem se importou com as tripas
nem com o bofe que levava para fazer o mungunzá e que os cachorros estavam
comendo. Não contou conversa, saiu correndo e gritando:
- É
a Besta-Fera! É a Besta-Fera!
Adentrou
feito um louco em sua casa, digo, dos necessitados de dona Afrouxada Navara, e
só depois é que ele percebeu que a porta estava fechada, quão grande era o medo
do barulho produzido pelas turbinas do avião, pensando ele que era o ronco da
tal Besta-Fera.
-
Muié, muié, muié!!!
- O
que foi isso, meu veio?
- É
o fim do mundo! A Besta-Fera! Nóis vai morrer! Oiça só o chamado da Besta-Fera!
- É
mermo! Meu veio, já que nóis vai morrer, eu quero contar uma coisa pra tu.
- E
o que diabo ocê quer contar pra eu?
-
Num só foi aquelas veize que ocê pegou eu seno ruim cum Mangaba não.
- O
que ocê tá dizendo pra eu, muié?
- Tô
dizeno a ocê que num fui fie a tu.
- E
quantas veize ocê inganô eu?
-
Óia aquele saco... Oiou?
-
Oiei.
-
Cada veize que eu butava chifre em ocê, eu tombém butava um caroço de miio
dentro do saco.
-
Muié, e pruque num contô a eu?
-
Cuma nóis ia cumer o muncusá? Eu tinha de conseguir o miio pra fazer o muncusá.
Quando
o avião passou para pegar o bandidão do DCE e que não era a Besta-Fera, a
aflição passou e o mundo não acabou, o Sr. Cornélio Nagaia foi pesar o milho
que sua mulher, digo, sua esposa havia depositado dentro do saco, caroço por
caroço, cada vez que o traía. A balança escolhida foi uma balança de precisão da
Farmácia Frei Damião e ainda pesou 64 kg de milho.
Quem
não quiser acreditar em mim, pode perguntar ao finado Mangaba, ao finado Mané
França, ao finado Chico Pequeno e a tantos outros finados que já morreram que
eles responderão:
-
Sic...
Autor: Abel Alves
Celular: (83) 98023208
E-mail: abelmetacritica@hotmail.com
Blog:
http://abelmetacritica.blogspot.com
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