terça-feira, 31 de julho de 2012

A BESTA-FERA


Paulista, cidadezinha do sertão decadente e empobrecido da Paraíba, com 14 mil habitantes mais o casal Cornélio Nagaia e Afrouxada Navara, destaca-se pela cultura da infidelidade. Tipicamente agrícola e excluída do mapa oficial, Paulista é a pátria de pessoas assistentes nas entranhas do semiárido nordestino, caso do Sr. Cornélio e da Sra. Afrouxada que nunca na vida viram um aparelho de televisor, não ouviram falar de anticoncepcionais, em DNA ou na importância de Santos Dumont para aviação mundial.
Cornélio Nagaia e Afrouxada Navara assistiam no Sítio de sugestivo nome “Ponta da Serra”, naquele termo. Como não se tinha muito o que fazer, Cornélio era pai de 17 “comedorezinhos de rapadura”. Pai? É, pai sim senhor porque pai é aquele que cria e Cornélio Nagaia criava a todos como Deus cria batata. Mas, pairava uma certa dúvida quanto à paternidade apenas dos 2 primeiros filhos dos casal. Senão, vejamos: Cornélio casara-se com Afrouxada 5 meses após tê-la conhecido e, 4 meses após o casamento, nasceu o casal de gêmeos, Penislaudo e Vaginilda. O fato de Cornélio manter-se virgem, donzelo, até os 6 meses após o casamento é apenas um detalhezinho irrelevante; e porque Cornélio era moreno e os 2 bebês eram galegos dos olhos azuis, não importava e não chamou a atenção de quase ninguém.
Agora, quanto aos outros 15 filhos do casal, toda a vizinhança e a torcida inteira do Flamengo tinham certeza absoluta de que Cornélio não era o pai biológico. Mas, como eles sabiam? Ah, responda quem souber. Afinal de contas, chifres são coisas que botam na cabeça das pessoas.
Afrouxada Navara era muito atraente. Diferentemente de seu marido, digo, de seu esposo, que tinha o biótipo de manequim da Brasil Gás, Afrouxada assemelhava-se a uma pamonha mal amarrada ou a um saco de jerimum amarrado pela boca e tinha um cheiro peculiar de murrinha, o que denunciava sua presença na circunvizinhança.
Apesar da comunicação ser quase inexistente no Sítio “Ponta da Serra”, Afrouxada Navara possuía um rádio de pilha “Nórdson” que só vivia com quebranto, no qual, algumas vezes, conseguia ouvir um pastor da Igreja Catogélica falar em Deus e na tal de “Besta-Fera”. Para ouvir mais falar nesses dois seres míticos, Deus e a “Besta-Fera”, em quem acreditava piamente, ela ia todos os dias rezar no rádio quebrantado na casa do rezador ou macumbeiro mais próximo que distava 14 km da casa de Afrouxada para que o “dion” funcionasse. Na verdade, o dito rádio só pegava, às vezes, quando o Sol esquentava que aquecia suas peças e dona Afrouxada Navara não sabia disto.
A esposa do Sr. Cornélio Nagaia aprendera algumas ladainhas e só andava pelos caminhos se fosse cantarolando-as, rezando, pois tinha muito medo da tal “Besta-Fera” que andava às soltas. Até que um dia aconteceu o inesperado quando dona Afrouxada Navara levava seu rádio de estimação para o rezador benzê-lo: Um indivíduo, também assistente no Sítio “Ponta da Serra”, individuo esse que mais se parecia com o resultado do cruzamento entre um desastre ecológico e uma mistura de cruz-credo, conhecido pelo alcunha de “Mangaba”, pegou a jumentinha “Sophia Loren” para fazer “severgonheza” na  bichinha. Mangaba despiu-se e amarrou a sua roupa no pescoço da sedutora Sophia Loren para começar a prática do estupro contra aquela bichinha quase indefesa. Mas, Sophia Loren não contou conversa: Ergueu-se nos tamancos, soltou três peidos grandes e um coice no capricho na altura dos países-baixos do estuprador de jumentinhas quase donzelas e correu com a roupa do taradão no pescoço.
Restou ao “Don Juan” sedutor de jumentinhas, versão coisa feia, tirar atrás de Sophia Loren para pegar sua roupa de volta. Mas, enquanto Sophia Loren corria com quatro patas, o maníaco sedutor de jumentinhas corria apenas com duas. Destarte, com o movimento da carreira empreendida, as partes nervosa e sensível do indivíduo sedutor de jumentinhas balançavam e faziam chilepo, chilepo, chilepo, chilepo... Nesse momento, quem ia com o rádio com quebranto para benzer na casa do rezador? Quem? Quem? Quem? Quem? Ora, era dona Afrouxada Navara.
Chilepo, chilepo, chilepo, chilepo... Quando a mulher do rádio com quebranto ouviu esse barulho e viu aquele mal assombro, ficou toda arrepiada e teve o maior susto de toda sua vida de servidora pública não assalariada, dando um grito esfarrapado, característico das superstições sertanejas:
- Deusin do céu! É a Besta-Fera!
A coisa feia, ainda mais feia correndo nu estrada a fora com suas coisas feias balançando e fazendo chilepo, chilepo, chilepo, chilepo, tentou acalmar dona Afrouxada Navara:
- Num é a Besta-Fera não! É eu, Mangaba. Dona Afrouxada, num viu Sophia Loren correndo com a minha roupa no pescoço não? Eu ia fazer severgonheza com ela, mas ela fugiu com a minha roupa.
Passado o susto, dona Afrouxada Navara ficou lambendo os beiços quando olhou para Mangaba e viu aquelas coisas feias que já não balançava mais e não fazia chilepo, chilepo, chilepo, chilepo. É claro que ela não iria dizer que vira Sophia Loren, pois as duas (a jumentinha Sophia Loren e dona Afrouxada Navara) eram rivais: Uma vivia querendo tomar o homem da outra. Além do mais, Sophia Loren fugira com a roupa de Mangaba porque tinha certo pudor, coisa que dona Afrouxada Navara não tinha. Sophia Loren não iria fazer severgonheza com Mangaba no meio da estrada por onde dona Afrouxada Navara passava todo dia com o rádio com quebranto para benzê-lo na casa do rezador, mesmo que fosse para fazer ciúmes à rival.
Todavia, apesar da trabuzana com a desafeta, dona Afrouxada Navara era uma mulher muito caridosa. Assim que chegava com o rádio já desquebrantado da casa do rezador, ela saía pelos moitéis da cercania prestando favores específicos às filas intermináveis de caçacos necessitados que faziam severgonheza com ela. Até mesmo Mangaba desistiu de Sophia Loren e passou a frequentar os moitéis e a casa de dona Afrouxada Navara só porque Mangaba percebera que dona Afrouxada Navara ficara lambendo os beiços quando o viu nu, com suas coisas feias balançando e fazendo chilepo, chilepo, chilepo, chilepo...
Quando Cornélio Nagaia despertou para a movimentação tão intensa em sua casa, ficou mais atento. Mas, ele somente adentrava a choupana velha quando saía o último membro da sociedade. Até que, certa noite, vendo a lamparina acesa e ouvindo o chiado da palha de arroz do colchão, ele se armou com uma faca-peixeira de 12 polegadas para investir contra João Fogoió, morador das cercanias que estava fazendo severgonheza com Afrouxada Navara. Cornélio adentrou o quarto do casal e foi logo mostrando que ele era quem era o homem da casa:
- Muié, muié, eu vou matar esse João Fogoió!
- Calma, Cornélio, não vá matar o pai dos seus fiios, ome!
- Afrouxada, é que ocê só faize severgonheza cum os outros!
- Dexa de injustoça que num faize nem três meise que ocê fez severgonheza cum eu!
- Quando?
- Quando ocê tava bebo.
- Afrouxada, eu nem bebo aico.
- Nóis também fizemo enxerimento naquele dia que ocê tava cum arroto choco. É que ocê num se alembra.
- Num se alembra! Muié, ocê oiça bem: Se eu pegar ocê sendo ruim outra veize cum esse Joao Fogoió, eu vou fazer uma desgracera sem tamanho e ocê num vai mais nunca furunfar cum ninguém.
- Mais furunfar é tão bom!
O tempo passava, a barba crescia, a coisa ficava preta e a fidelidade no casamento de Cornélio Nagaia e Afrouxada Navara era um artigo inexistente. Mesmo assim, os dois foram feitos um para o outro e, como todo mundo estava comentando que Cornélio estava sendo traído por sua esposa, ele resolveu dá uma saidinha para aliviar o peso dos chifres, digo, arejar a cabeça quando encontrou o cão chupando manga, Mangaba chupando os frutos da mangueira que tinha no oitão da casa. Até aí, tudo bem: Nada demais que alguém chupe manga da mangueira de um vizinho, de um sócio no amor, tão prestativo quanto o esposo de Afrouxada Navara. Mas, quando foi à noitinha que Cornélio voltou para casa e ouviu um barulho semelhante a um cachorro quando está bebendo água: “Laco-laco”! “Laco-laco”! “Laco-laco”! “Laco-laco”!, ele alarmou:
- Afrouxada, tem um cachorro comendo a lavagem. Espante ele.
Ora, que cachorro comendo a lavagem, que nada! Era Mangaba que estava furunfando, dando um trato completo na mulher, digo, na esposa de Cornélio: Fazendo severgonheza, chupando os peitos da Afrouxada, além de outras coisas inerentes. Então, Cornélio puxou a faca-peixeira da cintura e investiu contra Mangaba para defender a honra de sua mulher, digo, sua esposa, dizendo umas palavras de cabra macho:
- Sabia que vai morrer agora, seu enxerido?
Tão depressa, Mangaba levantou do colchão de palha de arroz e, sacando dois 22 que tinha adquirido num rolo feito com João Fogoió e com o rezador, escalou-os em cima do homem, digo, do chifrudo furioso e prosseguiu o diálogo violento:
- Sei não. Por modo de quê?
- Por modo de que eu vi o senhor chupando manga e agora o senhor tá tumando leite! Ou o senhor num sabe que manga cum leite ofende?
Sabendo que ia haver sangue, dona Afrouxada Navara interviu:
- Ocê, Cornélio, dexe de futrica, meu véio!
- Eu só quero saber o que esse enxerido tá fazendo cum ocê.
- Óia, é esse enxerido que traize os preá que é pra ocê cumer; é esse enxerido que enche os pote cum a água da cacimba; é esse enxerido que vai comprar os cachete que é pra ocê tumar quando tá cum bucho inchado e cum arroto choco!
- Ô, minha veia, então cubra o bichinho pra ele num pegar um difruço!
Somente Cornélio sabia o porquê de tomar uma decisão tão forçada: Ele passaria a assistir na sede do município e não mais no sítio Ponta do Cornélio, digo, Ponta da Serra.
E os filhos? Ah, os filhos de Cornélio, digo, de Afrouxada Navara ficaram com a vizinhança. Apenas o casal partiu para a cidade pois, mesmo sabendo que a dor do parto era muito grande, eles tinham que partir, para assistirem na Rua das Desilusões Amorosas, n° 666 – Paulista/PB.
Por que será que Cornélio Nagaia e Afrouxada Navara passaram dois anos sem saírem de casa? Alguns vizinhos diziam-lhes que 666 era o número da Besta-Fera e, sendo julgado pela infidelidade, o casal estaria marcado para ser levado para o quinto dos infernos. Mesmo assim, Cornélio foi ao açougue comprar 2kg de tripas e o “bofe” de uma vaca para dona Afrouxada Navara cozinhar dentro do feijão e do mungunzá. Ao passar defronte a residência de Abraão Xavier, Cornélio viu o dono da casa assistindo ao filme “Sociedade dos Poetas Mortos” e, quando o estudante atirou em seu próprio ouvido porque os seus pais tinham-no tirado da escola onde ele estudava Poesia, sem nunca ter visto um aparelho de televisor na vida, aos berros, Cornélio Nagaia interrompeu a sessão de cinema:
- Pelo amor de Deus, num dexe aquele home morrer nem ser levado pela Besta-Fera!
- Ô, chifrudo, isto é um filme – respondeu uma moça que estava fazendo sabão com Maria lá na área de serviço de Edilma.
 Assombrado com as Bestas-feras da vida ou com as Bestas-Feras de Paulista, Cornélio correu com as tripas e com o bofe na mão porque ele se atrasara para o preparo do mungunzá. Antes, porém, ele ficou ainda mais assombrado quando ouviu o pastor da Igreja Catogélica falar o seguinte:
- Meus amigos, a vida é regida por números: Número de telefone, número de cartão de crédito, número de carteira de identidade, número disso, número daquilo, número de pessoas. Assim, o pior número que existe é o número 666, que é o número da Besta-Fera. Se esse número 666 for o número de sua casa, venda-a imediatamente porque se não vender, a Besta-Fera vem buscar quem estiver morando nela.
Dirigindo-se a Cornélio Nagaia com palavras apocalípticas, o pastor da Igreja Catogélica gatuna deixou o homem, digo, o esposo de dona Afrouxada Navara todo cagado:
- O senhor, que mora na Rua das Desilusões Amorosas, n° 666, número da Besta-Fera, converta-se a nossa Igreja Catogélica, doe-nos a sua casa, de papel passado, para fazermos um descarrego e nos instalarmos lá, e pague 10% (dez por cento) de tudo o que o senhor ganhou, ganha ou ainda vai ganhar em toda a sua vida. Se o senhor não fizer isto, hoje mesmo será levado pela Besta-Fera! Repito: Se o senhor não fizer isto, hoje mesmo será levado pela Besta-Fera!
Ora, o pastor da Igreja Catogélica gatuna, que antes era assassino, homossexual e ladrão, estava de olho na ampla e confortável casa de Cornélio porque sua Igreja Catogélica gatuna funcionava parede-e-meia com o cabaré de Maria Pequena. Não que o pastor da Igreja Catogélica gatuna não gostasse do produto, ele até que gostava. O problema é que ninguém iria deixar de gastar o seu dinheirinho nas surubas promovidas pela proprietária do “ganga” para pagar o “dízimo” ao pastor da Igreja Catogélica gatuna e, além do mais, Maria Pequena só cobrava R$ 1,99 (Um real e noventa e nove centavos) por uma noite de furunfação para enfrentar a concorrência da ADECOPA e do Rio Piranhas, onde se fazia severgonheza de graça, ou seja, sem pagar R$ 1,99 (Um real e noventa e nove centavos) por furunfada à Maria Pequena nem o dízimo ao pastor da Igreja Catogélica gatuna.
E o que o Sr. Cornélio Nagaia poderia pagar ao pastor da Igreja Catogélica gatuna, se o que ele ganhou durante a vida inteira foi apenas chifre? Até mesmo a casa em que ele assistia com sua esposa Afrouxada Navara fora presenteada pela comunidade do Sítio Ponta da Serra que gostava muito daquela servidora pública.
Coincidentemente, no instante em que o pastor da Igreja Catogélica gatuna acabou de tentar persuadir Cornélio Nagaia, ouviu-se o barulho ensurdecedor do motor de um caça militar que participava da chamada “Operação Sertão”, que visava prender o presidente do DCE de Patos por este mafioso ter comprado um carro com o dinheiro das carteiras dos estudantes da Fundação Francisco Mascarenhas. Ao ouvir o barulho do avião, o Sr. Cornélio Nagaia nem se importou com as tripas nem com o bofe que levava para fazer o mungunzá e que os cachorros estavam comendo. Não contou conversa, saiu correndo e gritando:
- É a Besta-Fera! É a Besta-Fera!
Adentrou feito um louco em sua casa, digo, dos necessitados de dona Afrouxada Navara, e só depois é que ele percebeu que a porta estava fechada, quão grande era o medo do barulho produzido pelas turbinas do avião, pensando ele que era o ronco da tal Besta-Fera.
- Muié, muié, muié!!!
- O que foi isso, meu veio?
- É o fim do mundo! A Besta-Fera! Nóis vai morrer! Oiça só o chamado da Besta-Fera!
- É mermo! Meu veio, já que nóis vai morrer, eu quero contar uma coisa pra tu.
- E o que diabo ocê quer contar pra eu?
- Num só foi aquelas veize que ocê pegou eu seno ruim cum Mangaba não.
- O que ocê tá dizendo pra eu, muié?
- Tô dizeno a ocê que num fui fie a tu.
- E quantas veize ocê inganô eu?
- Óia aquele saco... Oiou?
- Oiei.
- Cada veize que eu butava chifre em ocê, eu tombém butava um caroço de miio dentro do saco.
- Muié, e pruque num contô a eu?
- Cuma nóis ia cumer o muncusá? Eu tinha de conseguir o miio pra fazer o muncusá.
Quando o avião passou para pegar o bandidão do DCE e que não era a Besta-Fera, a aflição passou e o mundo não acabou, o Sr. Cornélio Nagaia foi pesar o milho que sua mulher, digo, sua esposa havia depositado dentro do saco, caroço por caroço, cada vez que o traía. A balança escolhida foi uma balança de precisão da Farmácia Frei Damião e ainda pesou 64 kg de milho.
Quem não quiser acreditar em mim, pode perguntar ao finado Mangaba, ao finado Mané França, ao finado Chico Pequeno e a tantos outros finados que já morreram que eles responderão:
- Sic...
Autor: Abel Alves
Celular: (83) 98023208
E-mail: abelmetacritica@hotmail.com
Blog: http://abelmetacritica.blogspot.com


Nenhum comentário: